Elzanira da Silva: memórias e sementes de resistência

Na comunidade Santa Luzia, em Recife, cada esquina carrega uma história de luta. Quem caminha por ali e encontra Dona Elza, como é conhecida Elzanira da Silva, sente que a memória do território pulsa nas palavras dela — misturando lembranças da infância, da favela que resistiu, da pandemia que uniu, e da horta que hoje brota como sinal de vida.
Foi nesse espaço de dor compartilhada que ela encontrou acolhimento e, mais recentemente, através das parcerias com a agricultura urbana, também reencontrou esperança. Durante o Curso Estadual de Agricultura Urbana, realizado em agosto na Cozinha Solidária Santa Luzia, Dona Neidinha contou um pouco da sua trajetória – que hoje se enraíza também na terra.
Entre quintais e cidades

Há quem pense que a cidade é só pedra, vidro e pressa.
Mas há frestas.
E, nas frestas, há mãos.
Mãos que sabem o peso exato da terra molhada,
que reconhecem a alegria de um pé de couve vencendo o asfalto,
que guardam a receita antiga de chá para aliviar a tosse da criança.
São mulheres, muitas vezes.
Guardam sementes no bolso, no pote de vidro, na memória da avó.
Transformam quintais em hortas, hortas em festas, festas em encontros.
Ali se fala de comida, de saúde, de futuro.
Ali se aprende a esperar o tempo da folha,
o silêncio do broto,
a paciência que o chão exige.
Plantar no concreto, colher futuro — A força da agricultura urbana na periferia do Recife

No quintal da Escola Professora Inalda Spinelli, entre os muros cinzas da comunidade de Entra Apulso, a terra esperava. Esperava pelas mãos certas. E elas vieram. Em 2023, durante o curso Mulheres Plantando o Futuro, idealizado pelo Instituto Shopping Recife em parceria com a Kapi’wara e o coletivo Chié do Entra, um grupo de moradoras decidiu retomar o cuidado com a Horta Mandala, criada anos antes pela própria associação.
Das cozinhas aos quintais: a agricultura urbana como política de vida

A manhã ainda guardava uma névoa fina quando as primeiras pessoas chegaram à Cozinha Solidária Santa Luzia, na zona norte de Recife. Na panela fumegava macaxeira, ao lado do ovo frito, da galinha cozida e do café forte, compondo um cheiro que anunciava mais que um desjejum: era o início do Curso Estadual de Agricultura Urbana.