Entre quintais e cidades

Reflexões sobre as sementes que brotam no concreto e reinventam a vida nas cidades.

Há quem pense que a cidade é só pedra, vidro e pressa.
Mas há frestas.
E, nas frestas, há mãos.
Mãos que sabem o peso exato da terra molhada,
que reconhecem a alegria de um pé de couve vencendo o asfalto,
que guardam a receita antiga de chá para aliviar a tosse da criança.

São mulheres, muitas vezes.
Guardam sementes no bolso, no pote de vidro, na memória da avó.
Transformam quintais em hortas, hortas em festas, festas em encontros.
Ali se fala de comida, de saúde, de futuro.
Ali se aprende a esperar o tempo da folha,
o silêncio do broto,
a paciência que o chão exige.

A agricultura urbana não cabe nos mapas oficiais,
mas cabe no riso de quem colhe a primeira alface,
no cheiro de manjericão que invade a rua,
no pé de tomate que insiste em crescer na lata de tinta reaproveitada.

E assim a cidade respira.
Respira pela janela que abre para o quintal,
pela esquina que guarda uma horta comunitária,
pelo muro grafitado com flores que também são de verdade.

É nesse sopro verde que a vida lembra:
mesmo no concreto, o chão sonha.

Autoria:
Giuseppe Bandeira
Autor
Bashir
Foto

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