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Memórias e sementes de resistência
De Santa Luzia a Afogados, Dona Elza mostra que a agricultura urbana é raiz, resistência e esperança para o futuro das cidades.
Na comunidade Santa Luzia, em Recife, cada esquina carrega uma história de luta. Quem caminha por ali e encontra Dona Elza, como é conhecida Elzanira da Silva, sente que a memória do território pulsa nas palavras dela — misturando lembranças da infância, da favela que resistiu, da pandemia que uniu, e da horta que hoje brota como sinal de vida.
“Morei 33 anos neste território e vi de perto a luta para manter viva a horta e o espaço coletivo. Hoje, entrar na cozinha solidária e sentir o cheiro da comida feita na hora é a prova de que a gente resistiu”, contou durante o Curso Estadual de Agricultura Urbana.
Assistente social, mãe, articuladora comunitária e agricultora urbana, Dona Elza já não mora mais em Santa Luzia, mas segue conectada ao território. Hoje vive em Afogados, onde participa da Horta Comunitária Ruy Frazão. Para ela, voltar ao espaço que marcou sua história é também reencontrar raízes:
“Esse lugar me remete a muitas lembranças boas. Aqui, nos anos 1980, surgiram projetos importantes, conferências e cooperativas. Aqui também foi ocupada uma cozinha solidária na pandemia, para alimentar famílias. E hoje tem a horta, que me emociona porque mostra que esse território não perdeu sua força de resistência.”
Na fala firme, Dona Elza vai costurando o passado e o presente. Do núcleo de triagem de resíduos sólidos à horta comunitária, ela lembra das primeiras oficinas de compostagem, dos canteiros construídos coletivamente, das crianças correndo atrás da capoeira. “A gente colheu melancia, banana, coentro, plantas medicinais… tudo sem veneno, tudo natural. Isso mostra que é possível fazer do concreto chão fértil.”
Mas a agricultura urbana, para ela, é muito mais que produção de alimentos:
“Fazer agricultura urbana é plantar para comer, cuidar da terra, levar pro prato. É também resgatar a memória das mulheres que vieram antes de nós. São elas que guardaram a semente, que ensinaram a plantar no quintal. Hoje, a gente tem o quintal agroecológico, feito com amor e com as mãos que atravessam gerações.”
Na hora de deixar uma mensagem, Dona Elza é direta:
“Comer é um ato político. Vamos plantar! Mesmo que seja um coentro, um tomate, uma alface em casa. Isso é agroecologia: fazer junto, no coletivo, cuidar da terra, da saúde e da nossa vida.”
Para ela, plantar é também semear esperança na juventude, que precisa ser incluída na construção da agroecologia urbana. “O futuro da cidade está nesses quintais, nas hortas comunitárias, nas cozinhas solidárias. Está nas mãos de quem insiste em fazer brotar vida no meio do concreto.”
A história de Dona Elza é uma entre tantas que mostram como a agricultura urbana vai além do cultivo de alimentos. É memória, cuidado e política de vida: conecta mulheres, famílias e comunidades na construção de territórios férteis em meio ao concreto. Entre Santa Luzia e Afogados, ela segue semeando esperança e resistência, provando que a cidade também pode florescer quando mãos coletivas cuidam da terra.
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