“O JEITO nasceu antes…
Antes de virar documento, o JEITO Kapi'wara já existia espalhado nos detalhes. Ele…
floresta, território e identidade no coração da Caatinga
“Recaatingar é plantar água, polinizar a Caatinga e comer ancestralidades.” — Fausto Paiva, fundador do Ecossítio Catimbau, integrante da Associação Kapiwara e coordenador do projeto.
A Caatinga como mestra
O Vale do Catimbau, no Sertão pernambucano, guarda uma das maiores riquezas socioambientais do Brasil: a Caatinga. Único bioma exclusivamente brasileiro, ocupa cerca de 11% do território nacional, distribuído por 10 estados e abrigando mais de 27 milhões de pessoas. Resiliente, a Caatinga aprendeu a florescer sob condições extremas de seca, abrigando mais de 4.800 espécies de plantas, das quais 914 são endêmicas — só existem aqui.
Mas apesar de sua importância, a Caatinga segue invisibilizada. É o bioma menos estudado e menos protegido do país: apenas 1% de sua área está em unidades de conservação de proteção integral, segundo o Ministério do Meio Ambiente. Nos últimos 35 anos, o desmatamento já comprometeu quase 50% de sua cobertura original, de acordo com dados do MapBiomas (2021).
Em meio à crise climática, a relevância desse bioma cresce ainda mais. Estudos recentes indicam que os solos e vegetação da Caatinga são capazes de neutralizar até 50% dos gases de efeito estufa (GEE) durante o período chuvoso, funcionando como um aliado invisível no combate ao aquecimento global.
É nesse cenário que nasce o Rekaatinga Catimbau, um projeto que compreende a floresta como mais do que árvore: um território vivo, enraizado na cultura, na identidade e no futuro dos povos que o habitam.
“A gente entendeu que não adianta plantar tantos hectares de mudas se não garantir que essa floresta permaneça de pé daqui a 10, 20, 100 anos. E isso só acontece quando a terra está nas mãos de quem cuida dela: povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares.”
Um acúmulo de vivências
O Rekaatinga Catimbau é resultado de um processo iniciado em 2016, no Ecossítio Catimbau — espaço de experimentação em bioconstrução, agroecologia e cultura. Desde então, atividades de plantio de mudas nativas, manejo de roçados, oficinas culturais e cineclubes foram se entrelaçando em uma visão integrada.
“Não existe separação entre uma oficina cultural, uma roda de toré, o plantio de sementes ou a recuperação de uma nascente. Tudo faz parte da mesma luta pela vida da Caatinga e dos povos que a habitam.”
Essa compreensão deu forma ao projeto, estruturado em três grandes eixos que unem natureza, renda e identidade — conectando práticas regenerativas, saberes ancestrais e modos de vida do território.
Ciência e ancestralidade de mãos dadas
No Rekaatinga, ciência e tradição caminham juntas. Enquanto estudos acadêmicos apontam a Caatinga como peça-chave para o equilíbrio climático, o projeto mostra que os saberes ancestrais são igualmente fundamentais.
“Cada elemento da Caatinga é professor. O umbu ensina a armazenar água, o João de Barro ensina a construir, o barro ensina a transformar. É preciso reaprender com a Caatinga como conviver aqui.”
É essa pedagogia do bioma que guia o projeto: mutirões de plantio se encontram com rodas de conversa, e oficinas culturais se misturam a ações de restauração ambiental. A ciência não vem de fora — ela se enraíza no território, dialogando com práticas tradicionais e fortalecendo vínculos comunitários.
Desafios e caminhos
A experiência no Catimbau floresce com força, mas não sem enfrentar os ventos áridos que atravessam o território. O acesso limitado à água, a falta de recursos contínuos e o peso da burocracia pública ainda são barreiras que desafiam a permanência e expansão das iniciativas agroecológicas. No entanto, é justamente nesse chão seco que os saberes se reinventam e encontram caminhos possíveis: cisternas, tecnologias sociais e o cuidado coletivo se tornam pontes entre a escassez e a abundância.
Mais do que um projeto pontual, a vivência no território tem se consolidado como um processo. Um processo que articula escolas, comunidades, agricultores, artistas, pesquisadores e instituições públicas em torno de um objetivo comum: semear futuros onde a Caatinga seja vista não como obstáculo, mas como mestra e fonte de vida. E se os desafios permanecem, também permanece a força dos vínculos tecidos — aqueles que sustentam a caminhada quando os recursos materiais escasseiam.
Cada ação no Catimbau carrega o peso e a leveza da coletividade. É a mão que planta, a voz que ecoa, o saber que circula e o território que responde. Mesmo diante da ausência de investimentos estruturantes, a organização comunitária e as alianças forjadas em rede vêm se tornando a base para a continuidade das práticas e a autonomia dos grupos locais. Não se trata apenas de resistir, mas de criar condições reais de permanência no território.
É assim, entre precariedades e potências, que o Catimbau aponta caminhos. Caminhos que não são lineares, mas rizomáticos, feitos de curvas, desvios e reinvenções. Caminhos que se abrem na força das mulheres, na memória dos mais velhos, na criatividade dos jovens e na solidariedade que atravessa a Caatinga.
Um futuro enraizado na Caatinga
O que nasce no Catimbau não é apenas uma experiência isolada, mas uma semente plantada no tempo. A cada oficina, roda de conversa e caminhada pelas trilhas do território, germina uma rede viva que se expande para além das fronteiras da comunidade. As vozes que ecoam da Caatinga carregam projetos de vida, sonhos de permanência e a urgência de políticas públicas que reconheçam o valor de quem habita e cuida desse bioma.
Entre saberes ancestrais e práticas agroecológicas, vislumbra-se um futuro que não está nas promessas de grandes obras, mas na força de quem insiste em cultivar. Um futuro que se constrói no compasso da terra, no tempo das chuvas e dos encontros. Um futuro em que o Catimbau não é cenário, mas sujeito — pulsando, ensinando e resistindo.
As sementes lançadas hoje não germinam apenas em canteiros, mas em corações e territórios. A aposta é na educação viva, na autonomia comunitária e na valorização de práticas que dialogam com a Caatinga, e não contra ela. É nesse chão de possibilidades que formam-se novas gerações de guardiões da floresta seca — crianças, jovens e adultos que aprendem com a natureza e a transformam em horizonte.
O futuro que se desenha por aqui não cabe em planos prontos ou soluções importadas. Ele se escreve no ritmo das comunidades, nas experiências compartilhadas, na força de quem faz da Caatinga um território de vida e não de ausência. É um futuro enraizado, que brota da escuta, da presença e do desejo coletivo de permanecer. Onde a floresta, território e identidade são inseparáveis.
Num tempo em que a crise climática ameaça os biomas e a vida no planeta, o projeto mostra que a resposta pode estar naquilo que foi historicamente invisibilizado.
“Recaatingar é mais do que plantar árvores. É garantir que, daqui a 100 anos, as crianças desse território possam colher umbu, beber da nascente e dançar o toré.”
O Projeto Rekaatinga Catimbau é uma iniciativa realizada pelo Ecossítio Catimbau em parceria com a Associação Kapiwara, com foco na regeneração da Caatinga por meio de práticas integradas de agroecologia, apicultura e fortalecimento cultural. O projeto é apoiado pelo 37º edital do Fundo Ecos, financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
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