“O JEITO nasceu antes…
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O Brasil que cozinha com memória
O fogo acende antes do sol nascer. Em Juazeiro (BA), no pátio da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), o cheiro de beiju, coco e café de andu torrado se espalha, anunciando o 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA). Entre cantos, rezas e risadas, as mestras e mestres da cultura alimentar preparam um banquete que vai muito além da comida: um encontro de histórias, saberes e modos de existir. Na Cozinha das Tradições Tia Liquinha, o alimento é verbo, memória e território.
Mais do que uma cozinha, o espaço é uma travessia — um ponto de encontro entre o fogo ancestral e as políticas do presente.
Um legado de luta e pertencimento
Criada em 2019, no CBA de Aracaju, a Cozinha das Tradições (CdT) surgiu como uma experiência viva de troca e aprendizado entre povos e comunidades que resistem com a comida e pela comida. Em 2023, no Rio de Janeiro, o espaço se consolidou como herança viva do Congresso, seguindo ativo na Escola Superior de Desenho Industrial da UERJ, reafirmando que cozinhar também é fazer ciência, política e cultura.
Neste ano, a cozinha voltou ao Nordeste carregando o nome e a força de Tia Liquinha, mulher quilombola centenária de Várzea Queimada (BA), símbolo de luta, liberdade e pertencimento.
Sob sua bênção, vinte e uma receitas foram selecionadas em um processo nacional que reuniu dezenas de inscrições — de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, sertanejas e urbanas. Cada prato é uma declaração de amor à terra e um gesto de resistência: fava no coco, bolinho de banana da terra com peixe seco, pirão de bode, Amalá de Xangô e beiju tradicional.
“É muito precioso viver experiências como essa da Cozinha das Tradições, que promove o encontro de mestras e mestres da cultura alimentar, pessoas guardiãs de tantos saberes. Elas produzem comida de verdade: comida que conta histórias de ancestralidade, de resistência, mas também de afeto e de cuidado.” — Mariana Sobral, coordenadora coletiva da Cozinha e diretora executiva da Associação Kapiwara.
O arranjo político e a logística do afeto
Por trás de cada panela, há uma engrenagem que move muito mais que o paladar. A Cozinha das Tradições é um grande arranjo político e pedagógico, um espaço que materializa a soberania alimentar como prática cotidiana e coletiva.
Cada receita que chega ao fogo vem acompanhada de uma rede de apoio: agricultores e agricultoras familiares, cooperativas, feiras agroecológicas, povos e comunidades tradicionais. Essa logística, pautada pela reciprocidade, é a espinha dorsal do projeto.
Os alimentos que deram vida à Cozinha das Tradições Tia Liquinha percorreram muitos caminhos. Parte foi trazida pelas próprias mestras e mestres de seus territórios de origem — um punhado de sementes, saberes e memórias em cada cesto. A outra parte foi adquirida junto a fornecedores e agricultores familiares locais de Petrolina e Juazeiro.
Na soma desses gestos, o cardápio se tornou um mapa vivo da diversidade e da resistência dos povos de todo o Brasil. Com a força da anfitriã Bahia, o evento destacou a culinária do Semiárido, uma região que, mesmo sob o estigma da escassez, segue fértil em cultura e abundância.
Sabor e soberania na mesa
Durante três dos quatro dias de congresso, mais de mil refeições foram preparadas e servidas em dois turnos, todas com ingredientes vindos diretamente das mãos de quem cultiva. Cada prato trazia o sabor das roças e quintais de comunidades de Norte a Sul do país, revelando, em particular, a potência produtiva e a biodiversidade do Semiárido — terra de resiliência e inventividade, muitas vezes reduzida à imagem da seca.
O alimento que brotou na mesa foi também alimento político. Fruto de uma grande articulação entre movimentos sociais, universidades, organizações da sociedade civil e poder público, a Cozinha das Tradições mostrou que comer é também um ato de resistência: nutrir-se de modos de vida, fortalecer economias locais e celebrar a agroecologia como caminho de soberania e justiça.
Mais do que uma operação logística, o que se construiu foi uma cozinha de afetos e aprendizagens. Em cada etapa — da colheita ao prato — há uma pedagogia viva que ensina sobre corresponsabilidade e pertencimento. É o alimento que volta a ocupar o centro da política, o ato de cozinhar que se transforma em gesto coletivo e o fogo que acende novas formas de pensar o futuro da alimentação no Brasil.
O fogo que permanece aceso
Entre caldeirões, colheres de pau e histórias contadas à beira do fogão, a Cozinha das Tradições se afirma como um território de saberes e resistências. Um lugar onde o Brasil se revela em sua pluralidade — no tempero, no sotaque, na fé e na luta. Ali, o combate à fome se mistura ao enfrentamento das mudanças climáticas, e a política se faz no gesto simples de servir o outro.
Em tempos de retrocessos e monoculturas, o fogo dessa cozinha permanece aceso. Ele anuncia que outro país é possível — um país que se alimenta da diversidade e cozinha o futuro com as mãos das mestras, dos movimentos e dos territórios.
Porque, afinal, como dizem os que ali cozinham e sonham: “cozinhar é resistir.”
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