Mestre Francisco e o café de Andu torrado:

A voz da ancestralidade no Quilombo Lunga

No pátio da Cozinha das Tradições Tia Liquinha, em Juazeiro (BA), o cheiro de café de andu torrado pairava no ar. A iguaria, trazida pelo mestre Francisco do Quilombo Lunga, em Taquarana (AL), é um símbolo de adaptação, cura e resistência que mantém a juventude ligada ao território.

Formado em Agroecologia e guardião da cultura de sua comunidade, Francisco compartilhou a importância desse grão que se adaptou ao semiárido brasileiro, sempre honrando suas raízes.

O Guandu: um legado que cura e nutre

O café é feito a partir das sementes do feijão-guandu (Cajanus cajan), popularmente chamado de andu. Francisco explica a origem e a força da planta, que se tornou essencial para sua comunidade:

“O andu é um feijão que dá em árvore, eu prefiro dizer isso, né? Ele não é genuinamente brasileiro, veio da Ásia, mas se adaptou muito bem à região tropical, à região seca lá do Semiárido.”

Mais do que alimento, o andu carrega um saber medicinal. O mestre conta que o grão é valorizado pelos saberes populares por suas propriedades:

“Ele serve muita coisa, né? Principalmente para o coração, a purificação do sangue. Eu descobri que não sabia, teve uma colega que disse que curou o filho dela que tinha bronquite com o café de andu.”

O que diz a ciência

O conhecimento ancestral sobre o andu encontra respaldo na ciência. O Cajanus cajan é reconhecido por ser uma leguminosa de alto valor nutritivo e terapêutico, reforçando sua importância para a segurança alimentar e para a saúde.

Rico em nutrientes: O grão é uma excelente fonte de proteína vegetal (cerca de 20%), além de ser carregado com minerais essenciais como potássio (importante para a regulação da pressão arterial), cálcio, magnésio, fósforo e ferro, e diversas vitaminas do complexo B.

Ação terapêutica: O uso tradicional do andu para a “purificação do sangue” e tratamento de inflamações é corroborado por pesquisas. Estudos científicos apontam o uso do feijão guandu na medicina tradicional para combater a diabetes, doenças parasitárias e infecções. Em algumas pesquisas, inclusive, o grão tem sido estudado como um agente que atua na estabilidade das hemácias, sendo relevante em tratamentos coadjuvantes para a anemia falciforme.

Adubo natural: Além disso, na Agroecologia, o andu é valorizado por seu sistema radicular profundo e pela capacidade de fixar nitrogênio no solo, melhorando naturalmente a fertilidade e a estrutura da terra.

O festival, a formação e a luta pela permanência

O andu parece funcionar como um motor de mobilização e economia solidária. Ele se transformou no Festival do Café do Guandu, que envolve centenas de famílias e comunidades certificadas no estado de Alagoas, como Poço do L, Serra Verde, Sítio Novo.

“Dentro dos territórios lá a gente faz a festa consciência longa, onde a gente faz a degustação e vende o café de andu. Três municípios na minha comunidade fazem o Festival do Café do Guandu, reunindo até 180 famílias.”

O mestre ressalta que esse movimento se soma a outros eventos importantes, como a Festa do Meado de Agosto que convida instituições estaduais e federais para prestigiar a cultura e a diversidade.

Como bacharel em Agroecologia, formado pelo programa PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária), Francisco usa seu conhecimento para combater o êxodo rural:

“A população jovem não está ficando nos territórios, e isso enfraquece a cultura. Meu trabalho, também cultural, é para que os jovens tenham vivência na universidade e desenvolvam atividades em casa, mantendo a vida na roça.”

A homenagem que inspira o futuro

Ao final de sua participação, Francisco dedica sua luta e seu saber a quem lhe deu o caminho: sua família. A memória dos seus pais é a inspiração que o mantém na defesa do território.

“A memória da minha mãe eu não quero que se perca por onde eu passo. Uma mulher guerreira, forte, mãe de 11 filhos, criou todos na roça. Eu tô aqui hoje para homenagear a minha mãe. Meu pai também hoje tem 85 anos, guerreiro, tá lá ainda, vai pra roça ainda. Eu amo muito!”

O Café de Andu Torrado, é a prova de que a cozinha tradicional é uma das ferramentas mais poderosas para fortalecer a economia local, preservar a saúde e, acima de tudo, resistir no território, honrando a memória de quem veio antes e plantando sementes para quem virá depois.

Autoria:
Giuseppe Bandeira
Autor
Mariana Sobral
Edição
Manuela Cavadas Guimarães
Foto de Capa

Continue lendo:

“O JEITO nasceu antes do nome”: uma conversa sobre a metodologia que move a Associação Kapi’wara

“O JEITO nasceu antes…

Antes de virar documento, o JEITO Kapi'wara já existia espalhado nos detalhes. Ele…

Jeito Kapi’Wara: a metodologia que nasce da vida e transborda nos territórios

Jeito Kapi’Wara: a metodologia…

Antes de ser batizada, uma forma singular de atuar já guiava cada passo…

Sementes que ensinam: o Sistema Agroecológico Escolar e a reinvenção da educação ambiental

Sementes que ensinam: o…

Nos quintais das escolas públicas de Recife, o chão tem voltado a falar.…

Mestre Francisco e o café de Andu torrado: a voz da ancestralidade no Quilombo Lunga

Mestre Francisco e o…

No pátio da Cozinha das Tradições Tia Liquinha, em Juazeiro (BA), o cheiro…