Dona Neidinha:

entre memórias, dor e a descoberta da agricultura urbana

Em Olinda, Dona Neidinha revela como plantar e partilhar é também escrever a história da comunidade

Rosineide, mais conhecida como Dona Neidinha, chega com o sorriso aberto e um olhar que mistura firmeza e doçura. Aos 64 anos, ela é integrante do GCASC – Grupo Comunidade Assumindo Suas Crianças e participa do projeto Mães da Saudade, formado por mulheres que perderam filhos para a violência urbana, em Olinda.

Foi nesse espaço de dor compartilhada que ela encontrou acolhimento e, mais recentemente, através das parcerias com a agricultura urbana, também reencontrou esperança. Durante o Curso Estadual de Agricultura Urbana, realizado em agosto na Cozinha Solidária Santa Luzia, Dona Neidinha contou um pouco da sua trajetória – que hoje se enraíza também na terra.

Como foi participar do Curso Estadual de Agricultura Urbana?

Pra mim foi uma bênção. Eu dizia assim: “será que ainda tenho idade pra aprender?” E descobri que nunca é tarde. Eu gosto muito de coentro, mas não sabia plantar. Aprendi com o professor João que dá pra plantar a partir do talo, ou da semente. Parece pouco, mas é muito. Não é só o coentro, é o prazer de colocar a mão na terra, de ver nascer. Isso me fez pensar que a gente não aprende só na juventude, aprende em qualquer momento da vida.

Você já tinha alguma experiência com horta antes desse curso?

Já conhecia a horta Semeia Saúde e Liberdade, que é perto do nosso grupo. Mas participar dessa formação foi diferente. Porque não é só plantar, é conhecer outras pessoas, se sentir parte de um movimento. É bonito quando a gente aprende e também ensina. Eu mesma já cheguei em casa e fui mostrar às amigas como plantar o coentro.

O que a agricultura urbana representa para você hoje?

Representa esperança. Eu sofro com artrite, tenho minhas limitações, mas quando estou ali na horta me sinto bem. Eu até disse: “olhe, com 64 anos, tô aqui me abaixando, arrancando mato, plantado de novo”. É maravilhoso. E também é memória. Porque quando a gente planta, colhe, cozinha junto, a gente tá cultivando lembranças boas, que ajudam a curar outras dores.

E quando você pensa no futuro, quais são os sonhos que vêm com essa prática?

Eu me imagino num campo grande, cheio de plantas, como se fosse uma horta comunitária bem cuidada. Já até tenho uma foto que guardo em casa, que me lembra desse sonho. E não é só plantar, é fazer com amor. Porque quando a gente faz com amor, dá certo. E dá força pra gente continuar, mesmo com tudo que já vivemos.

A história de Dona Neidinha é uma entre tantas que mostram como a agricultura urbana não se resume ao plantio de alimentos.

É também um caminho de cuidado, de memória e de resistência – uma forma de transformar a dor em vida, e a cidade em território fértil.

Autoria:
Giuseppe Bandeira
Autor
Nemo Côrtes
Edição
Mikaelli Lira
Foto

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