“O JEITO nasceu antes…
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a agricultura urbana como política de vida
Curso Estadual de Agricultura Urbana em Pernambuco reúne lideranças e celebra conquista da Política Nacional de Agricultura Urbana
A manhã ainda guardava uma névoa fina quando as primeiras pessoas chegaram à Cozinha Solidária Santa Luzia, na zona norte de Recife. Na panela fumegava macaxeira, ao lado do ovo frito, da galinha cozida e do café forte, compondo um cheiro que anunciava mais que um desjejum: era o início do Curso Estadual de Agricultura Urbana.
Entre cheiros, bandeiras coloridas e abraços de reencontro, o espaço ganhava forma para receber um encontro que ultrapassa a dimensão cotidiana da formação. O curso é parte do projeto “Agricultura Urbana, apoiada na Agroecologia e Economia Solidária”, apoiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e coordenado nacionalmente pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em Pernambuco, a realização foi conduzida pelo NAC – Núcleo de Apoio ao Campesinato da UFRPE, em parceria com diversas instituições, tendo a Associação Kapi’Wara como responsável pela coordenação e execução local.
À primeira vista, poderia parecer apenas mais uma atividade formativa. Mas cada gesto — a decoração com bandeiras, a roda de cantorias puxada pelo grupo, o rio de pano azul no chão com pequenas capivaras de papel — revelava outra dimensão: a de continuidade da construção coletiva de um movimento que, semanas antes, havia se reunido em âmbito nacional no II Encontro Nacional de Agricultura Urbana (ENAU) que realizou a confluência de 21 estados do Brasil, em Recife.
Se no ENAU ecoaram as vozes de centenas de experiências de todo o país, desta vez os fios da rede se entrelaçaram em escala local, mostrando a potência e os desafios da agricultura urbana em Pernambuco, especialmente na região metropolitana de Recife.
Vozes que resistem
“Esse espaço aqui me remete às minhas lembranças. Morei 33 anos nesta comunidade e vi de perto a luta para manter viva a horta e o espaço coletivo. Hoje, entrar na cozinha solidária e sentir o cheiro da comida feita na hora é a prova de que a gente resistiu”, contou Elzanira da Silva, a Elza, agricultora urbana e articuladora comunitária.
Sua fala é mais que memória: é a materialização de uma prática que vem garantindo comida saudável a milhares de famílias urbanas no Brasil. Segundo os dados mais recentes da Rede Penssan (2024), o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), resultado de políticas públicas de combate à insegurança alimentar e da retomada de programas de apoio à agricultura familiar.
Apesar dessa conquista, a insegurança alimentar ainda atinge milhões de pessoas, revelando que a luta por soberania e segurança alimentar permanece urgente — sobretudo nas periferias urbanas, onde hortas comunitárias e cozinhas solidárias cumprem papel central de resistência e cuidado.
O fio da rede
João Pedro, da Associação Kapiwara, foi direto: “Estamos colocando mais um tijolinho no avanço da pauta da agricultura urbana no estado. Este curso reuniu cerca de 50 lideranças, de 30 territórios diferentes, majoritariamente mulheres, negras e idosas. São elas as guardiãs desses espaços de vida”.
O dado não é trivial. Pesquisa da Fiocruz e do CNAU mostra que, entre os participantes das oficinas sobre agricultura urbana em seis regiões metropolitanas brasileiras, mais de 80 % eram mulheres — reforçando o protagonismo feminino nessa prática que une alimento, cuidado e resistência.
O curso estadual, ao reunir essas experiências, mostrou como a agricultura urbana é também uma política de gênero e raça, embora ainda invisibilizada pelo poder público.
Entre políticas e práticas
O encontro também trouxe à tona a dimensão política da agricultura urbana. Desde julho de 2024, a prática passou a ser reconhecida nacionalmente pela Lei 14.935, que institui a Política Nacional de Agricultura Urbana. A sanção dessa lei representa uma conquista histórica dos movimentos sociais, coletivos e organizações que há décadas pautam a importância de produzir comida nas cidades.
“Não basta plantar e colher. Precisamos de políticas que garantam apoio, recursos e continuidade. A lei é uma vitória, mas o desafio é transformá-la em realidade nos territórios”, destacou Camila Silva de Lima, superintendente do MDA em Pernambuco.
A metodologia usada no curso — dividir participantes em grupos para aprender sobre compostagem, repelentes naturais, produção de mudas e espiral de ervas — revela que a técnica é também pedagógica: ensina que a transformação do território começa no detalhe, no adubo orgânico, no cuidado com a horta comunitária.
“Esses momentos fortalecem laços, criam amizade e aumentam o poder de articulação do movimento”, completou João Pedro, apontando que a comunicação é a ponte que conecta experiências e as torna visíveis: “Muitas vezes estamos invisibilizados. A comunicação é a cara que damos para o mundo”.
O futuro que brota do chão
No fim do dia, após o almoço coletivo elogiado pelas agricultoras, os participantes caminharam pela horta comunitária da cozinha solidária. No canteiro, a terra encharcada pela chuva da semana guardava mudas recém-plantadas. Crianças corriam entre as fileiras de couve e coentro, lembrando que a AU não é apenas presente, mas projeto de futuro.
O II ENAU já havia mostrado que o movimento cresce e se articula em escala nacional. O curso estadual, por sua vez, reafirma que a agricultura urbana é resistência e política de vida, enraizada no cotidiano dos territórios.
Plantar macaxeira no quintal, cozinhar coletivamente na cozinha solidária, cuidar da horta comunitária: cada gesto carrega poesia e política. Num país onde a fome ainda é realidade de milhões, a agricultura urbana insiste em dizer que o futuro pode, sim, nascer do chão.
Essa experiência faz parte do projeto “Agricultura Urbana, apoiada na agroecologia e economia solidária”, financiado pelo MDA e coordenado nacionalmente pela UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Em Pernambuco, a coordenação fica por conta do NAC – Núcleo de Apoio ao Campesinato da Universidade Rural Federal de Pernambuco (UFRPE), com o apoio de diversas instituições parceiras. A Associação Kapi’Wara foi a responsável pela coordenação e execução deste curso.
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