Plantar no concreto, colher futuro

A força da agricultura urbana na periferia do Recife

A horta que renasceu pelas mãos das mulheres

No quintal da Escola Professora Inalda Spinelli, entre os muros cinzas da comunidade de Entra Apulso, a terra esperava. Esperava pelas mãos certas. E elas vieram. Em 2023, durante o curso Mulheres Plantando o Futuro, idealizado pelo Instituto Shopping Recife em parceria com a Kapi’wara e o coletivo Chié do Entra, um grupo de moradoras decidiu retomar o cuidado com a Horta Mandala, criada anos antes pela própria associação.

“Por que não a gente cuidar disso aqui de novo?” — foi o que disseram, entre uma visita e outra aos espaços verdes da comunidade. A pergunta virou ação. E a ação virou rotina. Hoje, essas mulheres se revezam em escalas semanais para regar, plantar, colher e manter o espaço vivo.

Dessa terra já brotaram melancias, tomates, ervas medicinais, e mais recentemente um jiló enorme — símbolo de resistência e cuidado coletivo.

Plantar é também resistir

Não se trata apenas de plantar hortaliças. Plantar, para essas mulheres, é também afirmar a presença em territórios ameaçados por políticas públicas ausentes, especulação imobiliária e falta de acesso a alimentos de qualidade.

A partir da agroecologia, temas como direito à cidade, segurança alimentar, autonomia feminina e gestão comunitária de resíduos ganham forma prática, acessível e transformadora. O curso, que misturou teoria e prática, foi também um espaço de troca entre saberes tradicionais e tecnologias sociais.

A compostagem doméstica, por exemplo, passou a ser incorporada por muitas participantes como prática cotidiana. Plantar deixou de ser exceção e virou cotidiano.

Redes que sustentam e reencantam

O curso Mulheres Plantando o Futuro não foi um episódio isolado. Ele é parte de um percurso maior construído pela Kapi’wara em seus 10 anos de história: o fortalecimento da agricultura urbana em diálogo com coletivos comunitários e redes de apoio.

Entre os projetos que marcaram essa caminhada, estão:

  • a criação de farmácias vivas com plantas medicinais,
  • oficinas de bioconstrução e manejo agroecológico,
  • o apoio técnico à implantação de hortas escolares,
  • e a construção de experiências com compostagem comunitária, como o pátio do Shopping Recife, integrado à gestão comunitária.

Tudo isso articulado com um compromisso: fazer com que as soluções para as cidades partam das margens.

Comer do que se planta

A Kapi’wara entende que falar de justiça climática é também falar de comida. De quem planta, de quem cozinha, de quem come — e de quem não tem o que comer. Nas oficinas e encontros, sementes são trocadas, receitas compartilhadas, e o alimento vira ponte para conversar sobre o mundo.

“Quando a gente colhe junto, a gente também reparte o sonho”, diz uma das integrantes do coletivo Chié do Entra.

Justiças que brotam do território

A horta, os encontros, o mutirão e o jiló gigante são também expressão de algo maior: a luta por justiça ambiental, climática e territorial.

Para a Kapi’wara, a agricultura urbana é estratégia de enfrentamento às desigualdades e de construção de outros futuros possíveis. São experiências como essas que mostram que a cidade não está pronta — e que ela pode ser refeita pelas mãos de quem a cultiva todos os dias, com afeto e coletividade.

Plantar futuro é plantar liberdade

O que começou com uma visita à escola virou território fértil. O que era abandono virou vida. E vida, aqui, é verbo no coletivo.

Essa reportagem é uma homenagem à força das mulheres que, mesmo diante das maiores durezas, seguem semeando caminhos. Porque no concreto da cidade, a agroecologia urbana segue brotando. E colhendo futuro.

 

Essa experiência faz parte do projeto “Mulheres Plantando o Futuro da Entra Apulso”, realizado pela Associação Kapi’wara em parceria com o Instituto Shopping Recife e o coletivo Chié do Entra, entre 2023 e 2024.

Autoria:
Giuseppe Bandeira
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