“O JEITO nasceu antes…
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floresta, povo e permanência no Vale do Catimbau
O sol do sertão cai pesado sobre o Vale do Catimbau, mas é no miúdo das veredas, nos cantos de abelhas e nas sementes guardadas que o futuro se reinventa. Ali, onde o olhar alcança pedras milenares e a vegetação retorcida da Caatinga, pulsa também um movimento de resistência que mistura agroecologia, cultura e identidade.
É nesse cenário que encontramos Fausto Paiva, educador popular, comunicador, fundador do Ecossítio Catimbau e uma das vozes à frente do Projeto Rekaatinga Catimbau, realizado em parceria com a Associação Kapiwara. A conversa com ele, regada de pausas e poesia, vai costurando reflexões sobre floresta, território e permanência.
Foi desse bate-papo, entre lembranças e sonhos, que nasceu a entrevista que compartilhamos agora, em que Fausto conta de onde surge o Rekaatinga Catimbau e para onde ele quer levar a Caatinga.
Como nasceu o projeto Rekaatinga Catimbau?
Fausto respira fundo antes de começar. Não fala de prazos ou relatórios, mas de um acúmulo de práticas e afetos.
“Então, a gente inicia os trabalhos entre 2016 e 2017. Esse trabalho, desde o início, tem a ver com arquitetura sustentável, porque a gente trabalha aqui com bioconstrução, além de plantio de mudas nativas, de roçado, e de atividades comunitárias, de uma forma geral. Então, o projeto Rekaatinga Catimbau é justamente um acúmulo dessas experiências e experimentações que a gente vem realizando tanto aqui no Ecossítio como na zona de amortecimento do Parque Nacional do Vale do Catimbau, pois a gente trabalha incidência política, desenvolvimento territorial, com toda essa zona de amortecimento, ao qual existem comunidades originárias e comunidades tradicionais, desde a agricultura familiar, tanto quanto também quilombolas e indígenas.”
O que diferencia esse projeto de um simples plantio de árvores?
A resposta vem quase como um alerta, firme e poética ao mesmo tempo.
“Não adianta a gente plantar tantos hectares que forem de mudas nativas se a gente não garantir que essas árvores frutifiquem e permaneçam daqui a 10, 20, 50, 100 anos. Então, de que forma a gente pode garantir que essa árvore, essa floresta permaneça de pé depois de plantada? A gente precisa garantir a posse da terra justamente por quem cuida dessa terra. E quem são essas pessoas? São as populações tradicionais, seja da agricultura familiar, quilombolas, indígenas. Porque existem leis específicas para esses grupos tradicionais que garantem que um fazendeiro futuramente chegue nessa terra que a gente plantou, essa floresta, e derrube toda essa floresta para botar gado. Ele não vai poder fazer isso porque têm legislações específicas que garantem o direito de uso da terra apenas por esses grupos que cuidam da terra.”
Cultura e natureza caminham juntas?
Fausto sorri, como se essa pergunta fosse, na verdade, desnecessária. Para ele, não existe separação possível.
“A partir desse entendimento, a gente sacou que não existia dissociação nas ações que a gente realiza isoladamente, seja uma ação artístico-cultural, por exemplo, um cineclube, uma oficina cultural, isso não se dissocia da ação socioambiental, seja plantio de mudas nativas integradas aos roçados do povo, seja guardar sementes, seja um trabalho de manutenção de uma nascente de água.”
“Um cineclube, uma oficina cultural, o plantio de mudas ou a proteção de uma nascente: tudo isso está integrado. A gente não separa porque a vida não separa. É o mesmo movimento de fortalecer a terra, a água e a identidade do povo.”
O que significa “rekaatingar”?
No fim da conversa, Fausto se demora para responder. A palavra, inventada e reinventada no caminhar, ganha corpo em sua fala:
“Recaatingar é devolver vida à Caatinga. É plantar árvores no roçado, é guardar semente, é deixar a abelha trabalhar, é festejar a cultura do povo. É juntar a floresta e o território, porque um não vive sem o outro. É a certeza de que, se a árvore cresce, é porque o povo permanece. E se o povo permanece, a Caatinga floresce.”— Fausto Paiva
O Projeto Rekaatinga Catimbau é uma iniciativa realizada em parceria entre a Associação Kapiwara e o Ecossítio Catimbau, com foco na regeneração da Caatinga por meio de práticas integradas de agroecologia, apicultura e fortalecimento cultural.
O projeto é apoiado pelo 37º edital do Fundo Ecos, financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e implementado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
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