“O JEITO nasceu antes…
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o Sistema Agroecológico Escolar e a reinvenção da educação ambiental
Nos quintais das escolas públicas de Recife, o chão tem voltado a falar. O barulho do lixo orgânico sendo pesado por estudantes, o cheiro da terra úmida das composteiras e o entusiasmo das professoras ao redor dos canteiros anunciam algo que vai além de uma atividade pedagógica: é a agroecologia ensinando que o cuidado com o planeta começa dentro da escola — e de cada um de nós.
O Sistema Agroecológico Escolar (SAE) nasce dessa aposta: transformar o espaço escolar em território vivo de aprendizagem, cuidado e pertencimento. Financiado pela Adveniat e realizado em parceria com a Associação Kapi’wara, o projeto envolve cinco escolas no Recife e na região metropolitana. A proposta integra diagnóstico participativo, formação docente, medição dos resíduos orgânicos (Gravimetria) e implementação de sistemas de compostagem, com a participação de estudantes e professores — etapas que se entrelaçam em uma metodologia que é, ao mesmo tempo, pedagógica e política.
Educar com as mãos na terra
Para Mariana Sobral, uma das coordenadoras do projeto, o SAE nasce do desejo de unir as práticas agroecológicas com a educação popular. “A escola é um território de vida. Quando a gente propõe práticas agroecológicas dentro dela, estamos também propondo um outro jeito de ensinar e aprender — pela escuta, pelo cuidado, pelo fazer coletivo.”
Mais do que ensinar técnicas, o projeto propõe uma pedagogia do encontro. O chão da escola vira laboratório vivo. A compostagem, uma ferramenta de reflexão sobre segurança alimentar, consumo e descarte de resíduos. O ato de plantar, um exercício de afeto e pertencimento, onde os estudantes observam o tempo das coisas, o silêncio da semente, o ciclo que liga a merenda escolar à terra e de volta ao prato.
Os desafios estruturais e a urgência do lado de fora
O trabalho, no entanto, começa com o reconhecimento de um cenário de desgaste. Karla Fornari de Souza, também coordenadora do SAE, explica que o diagnóstico inicial identificou um “desinteresse da maioria dos estudantes” e um “desgaste em relação à rotina escolar”, que se concentra majoritariamente nas salas de aula.
O ambiente físico das escolas, muitas vezes reformado sem atenção à biofilia, reforça esse desafio: “As escolas sofreram uma reforma que praticamente não há nenhuma que tenha circulação de ar natural, ventilação natural ou a penetração da luz natural. A gente percebe que é urgente e necessário o trabalho dos estudantes nas áreas externas, no contato com a terra, com os animais”, afirma Karla. A urgência é desenvolver um novo olhar sobre o resto de alimento que está sendo gerado.
O envolvimento que transforma a rotina
Apesar dos desafios iniciais — inclusive o ceticismo de alguns educadores —, o engajamento tem sido um motor potente do projeto.
“Os professores inicialmente apresentaram sempre muitos desafios que pareciam impossibilitar a realização do projeto, mas a gente tem sentido um envolvimento muito grande”, relata Karla. O engajamento se estende aos funcionários de serviço geral e às merendeiras, que se envolveram com entusiasmo desde o início.
A implementação de sistemas de compostagem pedagógica em caixa d’água em todas as escolas funcionou como um ponto de inflexão, transformando a prática em conteúdo de sala de aula. Professores passaram a usar vídeos, pesquisas, desenhos e a produção textual, orientando até mesmo um Diário de Bordo para que os estudantes registrem o que veem, ouvem e sentem durante as práticas de compostagem.
As histórias que emergem desse processo são a prova do poder da agroecologia na educação:
Entre ciência e afeto: a escola como ecossistema
O SAE busca aprofundar o olhar sobre os ciclos da vida, onde a compostagem é uma metáfora viva da própria educação: tudo o que seria descartado pode se tornar solo fértil quando passa pelo cuidado coletivo.
O projeto constrói pontes e estimula o diálogo entre os saberes populares e o que a ciência pode oferecer. Assim, a escola se torna espaço de ciência viva, onde o conhecimento acadêmico se alimenta das experiências e práticas diárias, envolvendo direções, educadores, merendeiras, porteiros e estudantes em um processo de gestão democrática.
Semeando o futuro com permanência
Após a implementação dos sistemas de compostagem, o SAE avança para novas etapas: em uma escola, o foco será o plantio de plantas alimentícias; em outra, o fortalecimento do cultivo de plantas medicinais, nutrindo o solo e buscando com familiares os diferentes modos de preparo. Em breve, virão os intercâmbios pedagógicos.
O grande desejo de toda a equipe é a permanência dessas práticas. “Que esse laboratório vivo permaneça mesmo quando o projeto acabe, que eles assumam essas práticas pedagógicas na rotina escolar”, finaliza Karla.
É essa a mudança de cultura que o SAE semeia: a escola se reconhecendo como parte do ecossistema, e não separada dele. Nele, aprender e cultivar se tornam a mesma coisa. E cada estudante, professora ou merendeira que toca a terra descobre que educação também é plantar o que se quer colher: autonomia, consciência e vida.
O projeto é incentivado pela Adveniat, que acredita e investe em ações de transformação socioambiental.
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