“O JEITO nasceu antes do nome”:

uma conversa sobre a metodologia que move a Associação Kapi'wara

Antes de virar documento, o JEITO Kapi’wara já existia espalhado nos detalhes. Ele aparecia no passo lento e atento com que a equipe chegava nos territórios, no cuidado com o acolhimento nas reuniões, nos mutirões de barro que juntavam mãos e histórias, nas mediações sensíveis feitas dentro das comunidades, na comida servida como gesto político e na escuta que sabia mais observar do que conduzir.

Era um modo de estar – antes de ser um método.
Era prática antes de ser conceito.
Era caminho antes de virar teoria.

 

A nomeação veio depois, quando a Kapi’wara participou de uma aceleração do Instituto Ekloos e precisou explicar, para outras pessoas, como fazia o que fazia. Ao tentar contar, perceberam que não estavam descrevendo apenas projetos, ações ou processos, mas uma filosofia de atuação: um modo próprio de caminhar.

Foi nesse momento que nasceu o termo JEITO Kapi’wara – não como uma invenção nova, mas como aquilo que já estava ali, vivo, sendo praticado há anos.

Para aprofundar essa história e entender o que sustenta essa metodologia popular, ecológica e profundamente política, conversamos com Nemo Côrtes, um dos cofundadores da Kapi’wara, que acompanhou de perto o processo de criação e sistematização do JEITO.

Como nasceu o JEITO Kapi’wara?

Antes de existir um nome, já existia um JEITO. Quando fomos selecionados para uma aceleração com o Instituto Ekloos e começamos a apresentar nossa caminhada, percebemos que havia algo comum nos nossos processos. O JEITO nasceu da prática – da experiência acumulada com a assessoria técnica que fazíamos no Chié do Entra.

Foi nesse movimento de sistematizar nossa atuação que entendemos: aquilo não era apenas experiência, era uma metodologia. Ela já estava ali, mas faltava reconhecê-la. A aceleração ajudou a enxergar que nossa forma de atuar era inovadora, contextualizada e tinha uma identidade própria.

Quais inspirações e referências ajudaram a construir essa metodologia?

A Kapi’wara bebe de muitas fontes. A Pedagogia de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (PEADS), formulada por Abdalaziz de Moura e praticada pelo Serviço de Tecnologia Alternativa (Serta), sempre foi uma referência forte para nós. Ela traz essa perspectiva da educação para autonomia, para a sustentabilidade e para o desenvolvimento territorial a partir do protagonismo das pessoas.

A educação popular de Paulo Freire também é central – não só como teoria, mas como prática viva: comunicação popular, extensão, aprender fazendo, aprender escutando.

E tem uma terceira referência que é fundamental: a prática. Os mutirões, os processos de troca de saberes no Sítio Ágatha, esse aprendizado direto com o fazer. Então eu diria que o JEITO nasce desse tripé: PEADS, educação popular e a práxis – essa vivência coletiva que forma gente e território ao mesmo tempo.

Quais são os princípios essenciais do JEITO?

O JEITO está resumido nos próprios elementos da sigla que carregamos: a Jornada de Empoderamento e Integração entre Territórios e Organizações.

A jornada – essa caminhada pedagógica, esse processo formativo – é um princípio. O empoderamento – desenvolver capacidade, autonomia, fortalecer suJEITOs e coletivos – é outro. E a integração – conectar territórios, suas organizações sociais e suas forças vivas – completa esse desenho.

A gente acredita que em todo território já existe organização social. Nosso papel é facilitar conexões, integrar suJEITOs e organizações, e a partir disso, ajudar a semear soluções ambientais e caminhos de transformação.

Como o JEITO aparece na prática das ações da Kapi’wara?

O JEITO está presente porque escolhemos trabalhar com assessoria técnica contextualizada. Isso atravessa tudo: as formações, os mutirões, a forma de chegar, de acolher, de preparar uma cozinha, de conduzir uma reunião.

Como trabalhamos com comunidades em situação de vulnerabilidade, a nossa abordagem nunca é pontual. Ela é sempre uma jornada.

É criar vínculos, fortalecer autonomia, fazer com e não para, e integrar as pessoas às organizações e ao território delas. O JEITO garante que, quando saímos de um processo, as pessoas sigam caminhando – integradas, fortalecidas e capazes de dar continuidade ao que foi construído.

Que transformações o JEITO trouxe para a Kapi’wara e para você?

O JEITO trouxe clareza para mim. Ele deu nome ao que já era nosso. Fez a gente entender que nossa prática tem identidade, que não estamos apenas replicando boas experiências – estamos criando uma abordagem própria, que reflete nossa história e nosso território.

Para a Kapi’wara, o JEITO trouxe maturidade.

Foi a partir dessa metodologia que conquistamos prêmios, que fomos reconhecidos como assessoria técnica popular contextualizada e, recentemente, como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil. Isso é como um selo: confirma que a nossa forma de fazer tem valor, consistência e impacto real.

Como você enxerga o futuro do JEITO?

O JEITO é vivo. Ele amadurece, se transforma e se reinventa com cada projeto, cada oficina e cada pessoa nova que chega.

Vejo um futuro de expansão – de outras organizações replicando o JEITO, de termos mais processos formativos sobre ele, de dialogar com políticas públicas, de fortalecer a agroecologia nas cidades, nas matas, rios e florestas.

O JEITO trata de temas complexos, mas de uma forma acessível, popular e replicável. E enquanto houver território, ele vai seguir crescendo.

Mais do que responder perguntas, essa conversa revela algo essencial: o JEITO Kapi’wara é, ao mesmo tempo, método, filosofia e prática. Ele sustenta o trabalho da organização, mas também expressa uma ética de presença no território – caminhar junto, ouvir antes de agir, cultivar autonomia e colocar o cuidado no centro.

Não nasceu na mesa; nasceu no chão.
Nas relações, nas cozinhas, nos mutirões, nas mediações, nos encontros.

E é desse chão fértil, afetivo e profundamente coletivo que essa metodologia continua brotando todos os dias – sempre viva, sempre em movimento, sempre aberta ao que o território ensina.

Autoria:
Giuseppe Bandeira
Autor
Mariana Sobral
Edição
João Karkará
Foto de Capa

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